Dia da consciência negra

Hoje é dia da consciência negra, mais um dia para eclodirem diversas críticas à existência dessa data e de toda e qualquer ação afirmativa. Há quem realmente acredite que o Brasil é, hoje, uma ditadura-gay-transexual-negra-africana-feminista-satânica e que, como forma de protesto, aproveite a data para difundir seu discurso politicamente incorreto – leia-se, sem medo de ser preconceituoso – nas redes sociais.

As críticas à data já acontecem desde semana passada, quando passou a ser bastante compartilhado este vídeo de Morgan Freeman criticando o mês da consciência negra. O argumento do ator é o mesmo de todos: não existem raças, somos todos iguais, e não deveria existir um mês da consciência negra pelo mesmo motivo que não deve existir um mês da consciência branca: ele mais potencializaria do que combateria o preconceito.

É como se o fato de Freeman ser ator o desse maior força argumentativa no assunto e, principalmente, o fato de ser negro o autorizasse a dar a última palavra sobre o assunto. A lógica é a mesma de um fato ocorrido em algum Big Brother Brasil recente, no qual Pedro Bial perguntou a um participante negro qual a opinião dele sobre cotas e, ao ouvir do participante uma crítica ao sistema, pediu aplausos de todos e disse, triunfante: “viram só? nada mais a declarar”. Por essa lógica, a partir do momento que alguns indivíduos negros se declaram contra as políticas afirmativas, elas perderiam o porquê de existirem. [Talvez mais triste que isso seja ver colegas cientistas sociais desprestigiando sua própria profissão, escolhendo compartilhar o vídeo de um ator americano e não os inúmeros textos, dados e reflexões mais ricas que tivemos contato sobre o assunto]

Ora, é justamente por isso e por alguns anos de experiência nas costas em ensino privado e educação popular que posso discordar de Freeman e afirmar sem medo: nunca um mês da consciência negra foi tão necessário como hoje em dia (talvez mais ainda no Brasil do que nos EUA). Necessário para brancos, para negros e para todos os outros.

Em primeiro lugar, se existe um dia da consciência negra, é justamente porque em boa parte dos outros dias do ano somos expostos a uma consciência oposta, racista e preconceituosa, seja na publicidade, nos livros didáticos, nas músicas, nas novelas, no mercado de trabalho, na moda, enfim, em vários espaços da vida social. E quando digo que estamos expostos, quero dizer que estamos todos expostos: negros, brancos, indígenas, asiáticos, etc. Este vídeo é apenas um exemplo de como, desde a infância, a própria população negra pode incorporar acriticamente estímulos e discursos que resultam em autodiscriminação. Esperar que todo negro esteja completamente consciente de sua condição histórica e das consequências de seus atos e discursos é como esperar que todo indivíduo seja doutor em sociologia, defensor da igualdade de gênero, vote conscientemente e esteja plenamente consciente e de acordo com as consequências de seus hábitos para o ambiente, ou seja, é uma hermenêutica de boteco rasa, que em nada contribui para o debate público.

É por isso que o mês e o dia da consciência negra não são datas de celebração, de orgulho (já existem outras datas para tal, e se tratam de um outro assunto) nem de autocomiseração individual, mas sim de reflexão coletiva; não um dia de oposição entre brancos e negros, mas uma conscientização conjunta através da lembrança incômoda das desigualdades e exclusões sociais persistentes ao longo da história. Tal realidade precisa ser encarada, pois já se encontra extremamente naturalizada em nossas mentes.

Eis o segundo ponto relativo à importância de datas como a de hoje: cada vez mais as pessoas, especialmente a juventude (e não apenas os velhos tradicionalistas, quem diria), tendem a naturalizar ou mesmo negar não apenas o racismo, mas negar que a realidade social é construída através de processos históricos. Tentando compreender a lógica de pensamento dos alunos, cheguei a conclusão que essa tendência possui relação com o uso extremo e acrítico por parte dos jovens das novas tecnologias informacionais. Pierre Lévy, em “As Tecnologias da Inteligência”, aponta que a noção de tempo da oralidade seria circular (o tempo dos mitos, cujas histórias se são transmitidas de geração para geração, são assimiladas e se repetem, explicando a realidade), enquanto a noção de tempo da história moderna seria linear (a noção de progresso cumulativo que apreendemos nas aulas de história, materializadas nas linhas do tempo desenhadas na lousa). Contudo, o alto fluxo de informações das tecnologias de comunicação contemporâneas e da internet, o hipertexto, o microblogging e a produção constante de conteúdo fundaram uma noção de tempo pontual, o tempo real (live, ao vivo, nosso similar cognitivo do just-in-time  toyotista). Aqueles que aderiram ao padrão interativo virtual, isso significa uma ênfase no agora histórico e uma profunda irrelevância do que já passou na constituição desse agora. Se a noção de tempo linear possuía seus problemas didáticos e científicos, a noção de tempo pontual parece ter trazido novos dilemas e problemas para o ensino e a produção de conhecimento das ciências humanas.

O que isso tem a ver com racismo, diferença e dia da consciência negra? Tudo. Pois o dia da consciência negra é uma data de reflexão e exposição da construção histórica, do preconceito, da desigualdade racial e da exclusão, e é justamente este tipo de aprendizado histórico e compreensão crítica do passado que se perde cada vez mais entre os jovens, entre os alunos e entre todos. E se ganhamos em potencial de aprendizado crítico com a inserção da sociologia e da filosofia no ensino básico, perdemos com as consequências até então negativas da lógica atual de utilização da internet e das redes sociais no processo de aprendizagem. Diante disso, precisamos constantemente ser lembrados das histórias e processos que em plena era da informação alguns insistem em esquecer.

A ênfase na valorização de grupos até então excluídos incomoda a muitos. Como havia dito, alguns classificariam nosso tempo histórico como ditadura-gay-transexual-negra-africana-feminista-satânica. Fica evidente que os principais críticos das ações afirmativas e do atual contexto ou são realmente mal intencionados, ou sofrem com o mal da negação do processo histórico e da naturalização da realidade. Esquecem que falamos de ações afirmativas no país há pouco mais de 5 anos, num país que até mais de 500 anos atrás estava acostumado a aceitar que lugar de negro não era na universidade; não lembram que só na última década passamos a ter a obrigatoriedade de aulas sobre histórica africana e influência da cultura africana no Brasil; ignoram que só em 2012 oficializamos o sistema de cotas nas universidades federais, num país que viveu 3 séculos de sistema escravista; desconhecem que até hoje professores como eu entram na sala de aula do ensino médio privado e encontram 100% de estudantes brancos e a noite entram na sala de aula de cursinho público comunitário e encontram 95% de estudantes negros.

Infelizmente para os defensores do argumento de Freeman, diante dessa realidade não é entrando em uma sala de aula falando sobre o quão somos iguais e o quanto a palavra “raça” é uma bobagem descabida que conseguirei, enquanto professor, criticar o próprio ambiente no qual os estudantes estão inseridos. Conseguirei isso, pelo contrário, com o uso crítico e didático da categoria raça e de sua construção histórica, e aproveitando a presença oficial e institucionalizada de datas como a de hoje para me sentir obrigado, enquanto professor, a não ignorar o assunto.

Freeman defendeu o fim de datas como a de hoje. O mês da consciência negra, o dia da consciência negra, as ações afirmativas e as políticas de cotas têm sim, dia marcado para acabar, pra não existirem mais: o dia em que o preconceito acabar, o dia em que a carga histórica das relações raciais não seja mais condicionante das interações sociais e da dinâmica sociocultural do Brasil. Nesse dia, não só Morgan Freeman ficará satisfeito, mas todos nós. Quem não queria que a democracia racial fosse verdade? É um belo objetivo. Para que esse dia chegue, entretanto, ele precisa ser construído, planejado, racionalizado e conquistado através da história. Para tanto, eu e meus colegas professores, alunos e toda a sociedade precisamos estar vigilantes com o presente e conscientes do passado.

2 respostas para Dia da consciência negra

  1. elis disse:

    Parabens dou fe

  2. Vital Cruvinel disse:

    Excelente texto!

Deixe uma resposta

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

Seguir

Obtenha todo post novo entregue na sua caixa de entrada.

%d blogueiros gostam disto: