Guerra e Independência no Sudão / Sudão do Sul

28/05/2012

O vídeo acima, extraido de uma interessante serie televisiva sobre as relações entre poder politico e populações no mundo, revela alguns dos graves problemas humanitários atualmente encontrados no Sudão. A celebração da independência politica do Sudão do Sul em 2011 não trouxe tranquilidade e paz para os países, ainda mais nas regiões ricas em petróleo. A combinação da falta de recursos militares e a miséria social podem causar cenários devastadores, como o absurdo ato do governo sudanês de jogar bombas com pregos na população sul-sudanesa. As potências ocidentais, constantemente as primeiras defensoras dos valores democráticos e humanos, permanecem impassíveis.


Variações sobre a porta barroca – Roger Bastide

15/05/2012

Apresentação

Ao longo de seus dezesseis anos de permanência no Brasil, de 1938 a 1954, Roger Bastide interessou-se por quase todos os aspectos da vida nacional. Travou contato com gente do porte de Mário de Andrade e Gilberto Freyre, escreveu obras clássicas como Brasil, terra de contrastes ou As religiões africanas no Brasil e tornou-se figura de destaque na recém-fundada Faculdade de Filosofia da Universidade de São Paulo.1 Neste último âmbito, marcou a fundo a formação do grupo de críticos de arte e literatura reunidos na revista Clima, sobretudo pelo exemplo de um ensaísmo em que as questões sociológicas eram suscitadas pelo comentário minucioso da obra de arte – e não impostas a ela. Entre esses jovens críticos estava Gilda de Mello e Souza (1919-2005), que em 1945 traduziu o compêndio sobre Arte e sociedade de Bastide e, cinco anos depois, publicou sua tese de doutorado sobre O espírito das roupas, escrita sob orientação do mestre francês. Quase três décadas mais tarde, despedindo-se do quadro regular do Departamento de Filosofia da mesma universidade, dona Gilda redigiria um exposé finíssimo, que esmiuçava em benefício dos mais jovens “A estética rica e a estética pobre dos professores franceses” – isto é, as idéias estéticas de Claude Lévi-Strauss, Jean Maugüé e Roger Bastide em seus anos brasileiros. Para tanto, recorria a materiais “de difícil acesso” – conferências, notas de curso, artigos de circunstância –, “esparsos e em geral desconhecidos”.2 O ensaio que segue, “Variações sobre a porta barroca”, publicado em francês no segundo número da revista Habitat (São Paulo, 1951), com fotografias de Pierre Verger, dá mostra da vivacidade e do interesse desse material, que será parcialmente publicado em 2007 numa antologia inspirada no ensaio de dona Gilda e organizada por Fraya Frehse e Samuel Titan Jr.

Variações sobre a porta barroca – Roger Bastide

O que é a porta? Um vão. Mas um vão que separa dois domínios: o domínio dos deuses e o dos mortais – a porta do templo; o domínio da vida privada e o da vida pública – a porta da casa; a cidade e o campo – a porta da muralha. Ora, a passagem de um lugar a outro é tão perigosa como a de uma época a outra. Van Gennep notou-o muito bem a propósito dos primitivos em seu livro célebre sobre Os ritos de passagem: há ritos de entrada e ritos de saída – e tudo isso vale tanto para os modernos como para os antigos. O muçulmano deixa os sapatos ao entrar na mesquita; o católico tira o chapéu, molha os dedos na pia de água benta, faz o sinal da cruz – e a gente simples declara que não se deve jamais sair da igreja pela mesma porta pela qual se entrou. E tudo isso vale ainda para a porta da casa como para a do templo. Não é à toa que, em certos países, o recém-casado toma sua jovem esposa nos braços ao transpor a soleira da casa, assim como existe todo um ritual de entrada quando se recebem visitas.

De minha parte, associo a decoração de um portal a tais ritos de passagem. A ornamentação é a cristalização na pedra do cerimonial de entrada ou de saída; seja como for, ela o prolonga e embeleza. Prova disso é a existência de portas sem parede, portas que o arquiteto destacou da casa para jogá-las no meio da rua: os arcos do triunfo. O arco do triunfo, com suas colunas, suas abóbadas, seus frontões mostra a que ponto, no pensamento místico das multidões, a porta é um dos elementos essenciais do cerimonial e como a beleza perecível da madeira esculpida ou a beleza mais permanente da pedra talhada, do mármore colorido, acrescenta grandeza e nobreza ao gesto do homem que caminha, que transpõe o umbral de todo um mundo.

Hoje em dia, em nossa sociedade democratizada e laicizada, a porta perdeu em grande parte essa função social. Tende cada vez mais a ser um simples vão na parede. Um orifício retangular no concreto armado. Apenas a igreja conserva a porta como espetáculo artístico, como uma moldura de quadro em que a tela pintada é substituída por um pintura sempre cambiante – a dos indivíduos que entram e saem e aos quais a escadaria, pela disciplina que impõe aos músculos, confere momentaneamente um ar de dança ou de procissão ritual.

Mas a porta não apenas abre como também fecha, impede a passagem, protege. É a tampa do cofre que guarda um segredo. Em casa, o homem não é mais o homem da rua, ele abandonou, despiu sua personalidade pública, profissional; o batente o defende não apenas contra o ladrão, mas também contra o indiscreto. E sabemos que, outrora, a magia das aberturas tornava-as particularmente perigosas: daí todas as precauções que se tomavam para despistar os maus espíritos, os demônios, e para proibir às influências nefastas – e também aos “maus ares”, à doença e ao azar – que penetrassem pela abertura. O gesto, a que já aludimos, de carregar a jovem esposa ao transpor a soleira visa justamente salvar a mulher, mais permeável que o homem, dessas más influências. Ainda hoje, o folclore rural brasileiro dá mostras da permanência dos objetos profiláticos pendurados à porta dos casebres campestres: selos-de-salomão ou cruzes rústicas, papéis com rezas “fortes”, ferraduras, figas.

Se essa concepção da porta, que acabamos de esboçar brevemente, for correta, ela nos forçará a modificar a concepção clássica dos historiadores da arte a propósito da porta barroca.

O barroco, ao menos o barroco da Europa meridional, que é o único a nos interessar aqui, por suas ligações com o Brasil, é uma continuação do Renascimento. O Renascimento ressuscitara os elementos da arquitetura romana – os pilares, as colunas e seus entablamentos, o frontão etc.; mas esses elementos tinham uma função utilitária na arquitetura greco-romana: o pilar ou a coluna suportavam o peso do edifício, o frontão formava uma unidade com o teto. No Renascimento, esses elementos perderam suas verdadeiras funções utilitárias, não são mais que um aplique sobre a parede do edifício, ao redor da porta. Daí em diante, são suscetíveis de um tratamento que realça seu caráter artificial: o escultor pode fender o frontão a fim de inserir um cartucho, uma estátua, uma urna, pode cinzelar o pilar, pode retorcer a coluna, que não tem nada a suportar e que não precisa mais de sua solidez primitiva. Isso é o barroco.

Em linhas gerais, a tese é correta, é uma descrição exata do que se passou historicamente. Mas a oposição entre função arquitetural e ornamentação gratuita parecerá exagerada se pensarmos que a porta sempre teve alguma coisa de festivo, de cerimonial da pedra.

Desde as primeiras construções foi necessário introduzir sobre a porta um tronco de árvore que suportasse o peso da parte superior do edifício e, por sua vez, para suportar esse tronco talhado em ângulo reto, outros dois troncos-coluna a cada lado da abertura. Ora, os próprios materiais utilizados suscitavam uma moldura que ultrapassava a parede como saliência reta ou redonda. A função utilitária era também ornamentação e, nos dias de festa, essa ornamentação complicava-se com guirlandas de folhas entrelaçadas a flores, tranças e cipós que o barroco, mais tarde, imobilizará na pedra.

A casa, assim como o templo, respondia a necessidades coletivas, a necessidades sociais. Não se pode conceber um edifício como simples teorema de geometria aplicada, independente das funções sociológicas a que responde. O erro da tese clássica sobre o barroco está justamente em separar arbitrariamente a função arquitetônica pura da função social. A porta sempre foi o lugar privilegiado da ornamentação, em razão dos rituais de entrada e de saída, tanto na arquitetura religiosa como na arquitetura civil, no templo grego como na praça-forte, na arte românica assim como na arte gótica. O que muda com o barroco é a função social da porta, e é isso que, por sua vez, acarreta a passagem da coluna de sustentação à coluna-aplique, do frontão-teto ao frontão ornamental.

O barroco é o reino da festa perpétua (até mesmo a morte é motivo de festa, com seus grandes catafalcos). E também o reino da representação. Muito se disse sobre a ligação entre o barroco, o absolutismo real e as pretensões católicas do papado. Mas o absolutismo não impede a estratificação da sociedade em classes hierarquizadas, as pretensões da nobreza, a luta da burguesia nascente por um status social, assim como as pretensões pontifícias não impedem a luta das ordens religiosas e a concorrência pelo governo das almas. Todo homem desempenha um papel. A peruca majestosa dos cortesãos, os longos vestidos armados das infantas espanholas, a ordem das procissões pressupõem a porta ornamentada, a abertura festiva do palácio, da mansão ou da igreja. Já a porta da igreja ogival era ornada, mas por uma razão sociológica diferente, ela era uma ilustração da Bíblia, o livro ilustrado do povo analfabeto. A porta da igreja barroca é ornamentada de modo a formar o arco do triunfo do bispo que vem teatralmente abençoar a multidão. O frontão das portas senhoriais se fende para sustentar entre as duas tenazes ou volutas marinhas o brasão que exalta o fidalgo. Em suma, o que me parece essencial não é a passagem do elemento arquitetônico ao aplique ornamental, mas a passagem de um função sociológica da decoração a outra. É a mudança de função que conduz ao aplique.

O barroco brasileiro não é mera imitação. Ele responde, na colônia portuguesa, às mesmas funções que na Europa. É também, para os jesuítas e para as demais ordens religiosas, uma manifestação de poder. É ainda, para os senhores de engenho do Nordeste, uma manifestação de seu status social. Por isso, a porta desempenhará aqui um papel tão importante quanto do outro lado do Atlântico.

O que salta à vista é a falta de distinção, como de resto já acontecia na península Ibérica, entre arquitetura civil e arquitetura religiosa. Com efeito, o brasileiro é muito católico, não imagina a própria vida longe da Virgem e dos santos que protegem a ele e a sua família, santos familiares que, por assim dizer, fazem parte da casa (G. Freyre escreveu a esse respeito algumas páginas clássicas). É por isso que o cartucho do frontão da porta da casa pode conter uma imagem de santo, assim como na igreja. E a igreja, por sua vez, a fim de declarar seu poder temporal e mesmo sua disputa com o senhor de engenho, empregará na manifestação de seu status social os mesmos argumentos de pedra talhada, de enquadramento, de majestade que o leigo utiliza. Desse modo, as armas do arcebispo podem às vezes tomar o lugar da estátua do santo. É bem verdade que os ornamentos que se enrodilham em torno à porta da igreja podem, por um resto de tradição, conservar o trigo da hóstia e a uva do vinho da missa; mas, em geral, é a flor que domina, ou ainda a folha, a concha, o simples entrelaçamento de linhas, de arabescos caprichosos. Ornamentos, de resto, idênticos aos da Europa. Raros são os elementos tirados da terra: às vezes o abacaxi ou a touceira de milho.

Pode-se acompanhar, através das portas da Bahia ou de Recife, a evolução que conduz da porta jesuítica à porta barroca, e desta à porta rococó. Nem sempre se trata de uma mera evolução cronológica, pois há fenômenos de retardamento, tradições que se mantêm em meio às novidades. A porta jesuítica é a mais simples de todas, ainda ligada àquele movimento da Contra-Reforma que, mesmo afirmando o valor das imagens contra o protestantismo, tivera que se haver com o puritanismo: a abertura é realçada apenas pela leve saliência das pilastras. Em seguida, o frontão se fende e a cornija se projeta: é a revelação dos jogos de sombra e luz que, nos Trópicos, assumem um aspecto ainda mais fantástico que na Europa. Com o barroco propriamente dito, por mais que a pilastra continue a predominar no Brasil, surge também a coluna: mas, por vezes, como na igreja de são Francisco de Olinda, ela não serve a mais nada, chegando a prejudicar a beleza do cenário, fazendo parecer mais medíocre o cartucho terminal da porta e conferindo uma impressão de inacabamento. Em seguida, o frontão fendido começa a se curvar, ao passo que as pilastras se lavram em caneluras, em cordames, se arqueiam em folhas de acanto, transformando-se numa espécie de painel florido. A própria porta, de retangular que era, passa ao arco abatido ou cimbrado. Vale fazer uma menção especial à porta do Liceu de Artes e Ofícios da Bahia, não apenas por seu excesso ornamental, de todo modo raro no Brasil, nem por causa das duas estátuas encostadas às pilastras que guardam a porta, mas por causa da coluna e, mais exatamente, de sua base, que nos permite assistir à metamorfose da coluna em cariátide: o trabalho em relevo na pedra esboça o busto feminino, o bojo do ventre, ao passo que as linhas curvas do alto desenham a cabeça de sabe-se lá qual deus pré-colombiano, e as folhas esculpidas, reunindo-se, tornam-se véus a ocultar a nudez da coluna-mulher. Pouco a pouco, a graça sucede à majestade, o grácil ao suntuoso, sentimos o rococó que se aproxima, com suas cornucópias, seus buquês de flores, seu jogo amável de linhas curvas, seus nós de fitas e suas conchas que fazem pensar no nascimento de Vênus. Mas a porta é apenas uma parte do edifício e deve se ligar ao conjunto. O problema nem sempre foi resolvido com a mesma felicidade. Certamente, e sobretudo no caso das igrejas, a escadaria monumental, mesmo que de poucos degraus, eleva a porta acima do chão e lhe confere uma grandeza nova. Ao forçar o indivíduo a erguer a vista, ela o obriga a dirigir o olhar para a parte superior, o ático, o medalhão ou o cartucho, para a parte mais importante tanto em termos sociais (nicho de santo, brasão, armas) como em termos estéticos (lugar em que a decoração domina). Mas é igualmente preciso examinar as relações entre a porta e a janela. A igreja do Rosário dos Pretos da Bahia, com seus arcos lanceolados, liga graciosamente a parte inferior das janelas à parte superior da porta. Mas o nicho do convento da Lapa invade a janela. O espaço compreendido, na igreja de Santo Antônio, em Recife, entre o primeiro andar e o chão é tão exíguo que o frontão da porta vê-se um tanto comprimido demais, ao passo que, em outros casos, o frontão, a fim de chegar à janela sem deixar muito espaço vazio, é obrigado a se estender com algum abuso. Contudo, deve-se reconhecer que os arquitetos tentaram resolver o problema das proporções fosse alargando a porta, fosse alongando-a. Percebe-se que, quase sempre, a porta foi concebida na perspectiva do edifício, e não em si mesma.

Mas a porta, como dizíamos no início, não é apenas um vão emoldurado. É ainda o batente que protege e obstrui. E não devemos admirar exclusivamente, nos portais do Nordeste brasileiro, a arte do entalhador de pedra, mas também a do entalhador de madeira.

A segurança das cidades ainda não era tal que o batente da porta pudesse ser um mero símbolo da proibição de entrar. A porta é maciça e gira pesadamente sobre suas dobradiças. Mas justamente a espessura da madeira permite que o artista dê livre curso à fantasia estética. Também aqui há uma longa evolução, da porta majestosa, de linhas geométricas, losangos, quadrados e retângulos imbricados no batente, à porta graciosa, com seus entalhes na massa da madeira, suas flores desabrochadas, suas folhas retorcidas e até mesmo suas leves guirlandas que dançam como ao sopro da brisa marinha.

Batente de recepção, batente de probição! Penso na cabeça da fotografia, que recebe o visitante, mostrando-lhe a língua. E penso na cabeça de Medusa, que não se podia contemplar sem ser instantaneamente petrificado e cujo significado sexual eu sublinhei em minha Psicanálise do cafuné. Mas penso ainda em certa conferência de Gilberto Freyre sobre o caráter “moleque” do baiano, perceptível até mesmo no grave Ruy Barbosa. Essa língua mostrada ao visitante, essa transformação da cabeça mágica e profilática que protege a entrada contra as más influências e que se transmuta aqui em língua mostrada maliciosamente ao visitante que vem bater à porta – quem poderia encontrar imagem mais bela para ilustrar a tese de G. Freyre sobre o caráter “moleque” da cidade de Salvador? Eu acrescentaria de bom grado essa aldrava em forma de mão feminina, motivo bem tradicional, mas que se harmoniza tão bem ao gênio da Bahia, à sua sensualidade; essa mão acolhedora, sinal de amizade que retemos em nossa própria mão um momento antes de bater, como se fosse a da dona da casa, e que logo se transformará, assim que a deixemos cair, em mão musical.

De modo que, mesmo em suas portas, a Bahia é a cidade de “todos os santos e todos os pecados”.

Recebido para publicação em 22 de junho de 2006

Notas:

Fotos: Pierre Verger
Tradução de Samuel Titan Jr.
Apresentação de Fraya Frehse e Samuel Titan Jr.
Fraya Frehse é professora no Departamento de Sociologia da USP.
Samuel Titan Jr. é professor no Departamento de Teoria Literária da USP.

[*] Novos Estudos agradece a Glória Amaral e ao Centre d’Études Bastidiennes pela contribuição e à Fundação Pierre Verger por autorizar a publicação das fotos. Parte representativa do trabalho de Verger pode ser vista na mostra “O Brasil de Pierre Verger”, em exposição no Museu de Arte Moderna de Salvador até 08 de novembro de 2006, e no catálogo homônimo. Mais informações em http://www.pierreverger.org/. O tradutor agradece a leitura de Guilherme Wisnik. 
[1] Cf.Antonio Candido,”Roger Bastide e a literatura brasileira”, in Recortes (São Paulo: Companhia das Letras, 1996),pp.99-104. [Links ]
[2] Gilda de Mello e Souza, “A estética rica e a estética pobre dos professores franceses”. In: Exercícios de leitura (São Paulo:Duas Cidades,1980), pp.9-10. [ Links ]

Fonte:

Novos Estudos – CEBRAP
Print ISSN 0101-3300
Novos estud. – CEBRAP no.75 São Paulo July 2006
doi: 10.1590/S0101-33002006000200009

http://www.scielo.br/scielo.php?pid=S0101-33002006000200009&script=sci_arttext

Extraído de:

http://epifenomenos.blogspot.com.br/2009/04/o-que-e-porta-roger-bastide-e-o-barroco.html


O caráter destrutivo – Walter Benjamin

14/05/2012

É possível que alguém, ao fazer um retrospecto de sua vida, verifique que quase todas as ligações mais profundas que ele experimentou, tenham partido de indivíduos sobre cujo “caráter destrutivo” todo o mundo estava de acordo. Esbarraria um dia, talvez casualmente, nesse fato, e quanto mais duro fosse o choque, tanto maiores seriam suas chances de representar o caráter destrutivo.

O caráter destrutivo conhece apenas uma divisa: criar espaço; conhece apenas uma atividade: abrir caminho. Sua necessidade de ar puro e de espaço é mais forte do que qualquer ódio.

O caráter destrutivo é jovem e sereno. Pois destruir rejuvenesce, porque afasta as marcas de nossa própria idade; reanima, pois toda eliminação significa, para o destruidor, uma completa redução, a extração da raiz de sua própria condição. O que leva a esta imagem apolínea do destruidor é, antes de mais nada, o reconhecimento de que o mundo se simplifica terrivelmente quando se testa o quanto ele merece ser destruído. Este é o grande vínculo que envolve, na mesma atmosfera, tudo o que existe. É uma visão que proporciona ao caráter destrutivo um espetáculo da mais profunda harmonia.

O caráter destrutivo está sempre atuando bem disposto. A natureza lhe prescreve o ritmo, pelo menos indiretamente: pois ele deve adiantar-se a ela, do contrário ela própria assumirá a destruição.

O caráter destrutivo não se fixa numa imagem ideal. Tem poucas necessidades, e a menos importante delas seria: saber o que ocupará o lugar da coisa destruída. Primeiramente, pelo menos por um instante, o espaço vazio, o lugar onde se encontrava a coisa, onde vivia a vítima. Certamente vai aparecer alguém que precise dele, sem ocupá-lo.

O caráter destrutivo executa seu trabalho, evitando apenas trabalhos criativos. Assim como o criador busca a solidão, assim também o destruidor precisa cercarse continuamente de pessoas, de testemunhas de sua eficácia.

O caráter destrutivo é um sinal. Assim como um sinal trigonométrico está exposto ao vento, de todos os lados, assim também ele está exposto, por todos os lados, aos boatos. Não tem sentido protegê-lo contra isso.

O caráter destrutivo não tem o mínimo interesse em ser compreendido. Considera superficiais quaisquer esforços nesse sentido. O fato de ser mal entendido não o afeta. Ao contrário, ele provoca mal entendidos, assim como o faziam os oráculos – essas instituições políticas destrutivas. O fenômeno mais pequeno-burguês, o falatório, só acontece porque as pessoas não querem ser mal entendidas. O caráter destrutivo não se importa de ser mal entendido; ele não fomenta o falatório.

O caráter destrutivo é o inimigo do homem-estojo. O homem-estojo busca sua comodidade, e a caixa é sua essência. O interior da caixa é a marca, forrada de veludo, que ele imprimiu no mundo. O caráter destrutivo elimina até mesmo os vestígios da destruição.

O caráter destrutivo se alinha na frente de combate dos tradicionalistas. Uns transmitem as coisas na medida em que as tomam intocáveis e as conservam; outros transmitem as situações na medida em que as tornam palpáveis e as liquidam. Estes são chamados destrutivos.

O caráter destrutivo tem a consciência do indivíduo histórico cuja principal paixão é uma irresistível desconfiança do andamento das coisas, e a disposição com a qual ele, a qualquer momento, toma conhecimento de que tudo pode sair errado. Por isso, o caráter destrutivo é a confiabilidade em pessoa.

O caráter destrutivo não vê nada de duradouro. Mas, por isso mesmo, vê caminhos por toda a parte. Mesmo onde os demais esbarram em muros ou montanhas, ele vê um caminho. Mas porque vê caminhos por toda a parte, também tem que abrir caminhos por toda a parte. Nem sempre com força brutal, às vezes, com força refinada. Como vê caminhos por toda a parte, ele próprio se encontra sempre numa encruzilhada. Nenhum momento pode saber o que trará o próximo. Transforma o existente em ruínas, não pelas ruínas em si, mas pelo caminho que passa através delas.

O caráter destrutivo não vive do sentimento de que a vida vale a pena ser vivida, e sim de que o suicídio não compensa.

(Indicação de Elis Piera Rosa)


Editorial de “O Globo”: defesa da liberdade?

13/05/2012

A revista Veja acaba de publicar uma notícia afirmando que o editorial do jornal “O Globo” de hoje entrou pra história da defesa da liberdade de expressão no Brasil. Pra quem não viu, o editorial defendeu a revista e seus jornalistas da CPI do Cachoeira. Na visão da empresa, não são atividades ilícitas as mais de 200 ligações entre Cachoeira e seu redator-chefe, ou as trocas de informações sobre a data da publicação de algumas das matérias e seus reflexos políticos. Pelo contrário, estaria em curso um ataque à mídia e à liberdade de imprensa. Veja aqui a matéria.

Pra que permaneça em nossas memórias a verdadeira face das velhas mídias, compartilho aqui o editorial do jornal O Globo do dia 2 de abril de 1964, logo após o Golpe Militar que instaurou a ditadura no país. Que fique clara a falta de legitimidade desses meios como porta-vozes da opinião pública – cada vez mais crítica da aparente defesa da liberdade de expressão e opinião, sempre relativizada diante de seus reais interesses econômicos e ideais políticos.

Ressurge a Democracia! Vive a Nação dias gloriosos. Porque souberam unir-se todos os patriotas, independentemente das vinculações políticas simpáticas ou opinião sobre problemas isolados, para salvar o que é de essencial: a democracia, a lei e a ordem. Graças à decisão e ao heroísmo das Forças Armadas que, obedientes a seus chefes, demonstraram a falta de visão dos que tentavam destruir a hierarquia e a disciplina, o Brasil livrou-se do governo irresponsável, que insistia em arrastá-lo para rumos contrários à sua vocação e tradições. Como dizíamos, no editorial de anteontem, a legalidade não poderia ter a garantia da subversão, a ancora dos agitadores, o anteparo da desordem. Em nome da legalidade não seria legítimo admitir o assassínio das instituições, como se vinha fazendo, diante da Nação horrorizada“; “Fugiu Goulart e a democracia está sendo RESTABELECIDA“; “Castelo Branco: as forças armadas são para defender a lei, não a baderna” (Jornal O Globo, 2 de abril de 1964)


A evolução dos escândalos – a mídia sobre o caso Cachoeira

12/05/2012

Por Luciano Martins Costa

Extraído de Observatório da Imprensa

Entre a manchete e a nota curta, o noticiário sobre o envolvimento de políticos com o crime organizado que tem no comando “empresários” dos jogos de azar leva o leitor atento a se perguntar como certos personagens do rodapé do noticiário policial acabam no alto das páginas dos jornais.

Por tudo que tem sido noticiado sobre o modus operandi do bicheiro conhecido carinhosamente entre seus parceiros de crime como “Carlinhos Cachoeira”, admira o fato de haver se estabelecido e prosperado tão rapidamente, alcançando tantas supostas cabeças coroadas da República, sem que a chamada grande imprensa se desse conta de sua existência.

Há um aspecto claramente rudimentar em tudo isso: o esquema é tão primário e deixa tantas pistas, que admira não ter sido descoberto pela própria imprensa antes dos vazamentos de gravações feitas pela Polícia Federal.

Uma exceção: o jornal O Popular, das Organizações Jaime Câmara, de Goiânia, vem acompanhando a crescente influência de Carlos Cachoeira na política regional desde 2005, e documentou a extensão de suas atividades até o Distrito Federal. Além disso, suas reportagens sobre corrupção e violência policial no estado de Goiás apresentaram muitos indícios de contaminação da política pela mistura entre criminosos e autoridades, a partir da revelação das atividades de um “esquadrão da morte” formado por policiais militares, com óbvio suporte de políticos e representantes da Justiça.

Sem segredo

Então, o problema da miopia estaria localizado principalmente naqueles veículos de circulação nacional, que só enxergam os problemas regionais quando eles passam a afetar o campo central da República.

Tanto mais grave, então, que a imprensa, naquilo que tem de mais representativo, não tenha sido capaz de detectar a extensão da influência alcançada por um chefete do crime organizado sobre tanta gente importante.

Na terça-feira (8/5), os jornais registram as suspeitas de negócios escusos comandados pelo bicheiro envolvendo os governadores do Distrito Federal, do Rio de Janeiro e de Goiás. Os três mandatários são personalidades de destaque nos três maiores partidos do país – PMDB, PT e PSDB.

A sequência do noticiário mostra o acelerado processo de metástase do esquema de Cachoeira sobre a política nacional e a longevidade das relações da construtora Delta – citada como o “braço legal” do esquema – com negócios públicos. Somente no Rio de Janeiro, a empresa obteve contratos, a partir de 2007, que ultrapassam a quantia de R$ 1 bilhão.

Detalhes já divulgados das gravações entre o bicheiro e seu principal parceiro no ambiente institucional, o senador Demóstenes Torres, revelam que tudo se origina no financiamento de campanhas eleitorais com dinheiro do crime organizado, que usa o sistema de doações para lavagem de suas receitas, cobrando o pagamento em obras superfaturadas.

O esquema parece simples demais, até mesmo para não especialistas. A investigação das atividades de organizações como essa não é segredo para nenhum jornalista com um mínimo de experiência e interesse. Basta observar as relações sociais desse tipo de delinquente.

Nota de rodapé

Nos anos 1980, a revista Veja denunciou as atividades criminosas de um chefe de quadrilha bem postado na sociedade após observar suas relações sociais com autoridades do Judiciário paulista.

No Rio de Janeiro, é longa a lista de casos policiais que têm como epicentro as atividades dos banqueiros do jogo clandestino.

Trata-se de personagens clássicos da crônica policial, que se caracterizam pela personalidade patológica que não aceita os controles sociais e se negam a admitir a punibilidade. Personagens como Carlos Cachoeira acreditam tanto na eficiência de seus esquemas que não se preocupam em disfarçar suas ações. Quando descobertos, surpreende a pouca sofisticação de seus “planos de negócio”.

Contam quase sempre com o beneplácito de muitos representantes do Judiciário, que costumam tratar a contravenção como um delito menor, deixando de enxergar os esquemas de corrupção e violência que cercam essa atividade quase folclórica.

Na mesma edição do Estado de S.Paulo que noticia na seção de Política a abertura de inquérito para investigar as relações de Carlos Cachoeira com o governador de Goiás, Marconi Perillo, o caderno “Metrópole” informa que o ministro Marco Aurélio Mello, do Supremo Tribunal Federal, mandou soltar os chefes do jogo do bicho no Rio de Janeiro, presos na chamada Operação Hurricane da Polícia Federal, alegando que o decreto de prisão não estava devidamente fundamentado.

Um dos presos, o capo conhecido como Capitão Guimarães, havia sido condenado em março a 48 anos de reclusão.

A notícia saiu em uma nota de pé de página.


Exercícios – Agricultura no Brasil

09/05/2012

Alguns exercícios objetivos sobre produção agrícola no Brasil.

 

http://airtonmoreirajr.files.wordpress.com/2012/05/lista-de-exercc3adcios.docx


Exercícios sobre capitalismo e socialismo

07/05/2012

Exercícios sobre capitalismo e socialismo para ensino fundamental e médio no link abaixo:

 

http://airtonmoreirajr.files.wordpress.com/2012/05/geografia-exercc3adcios-sobre-capitalismo-e-socialismo.docx


We All Want to Be Young

25/04/2012

um bom vídeo sobre as mudanças na juventude e seus reflexos na sociedade contemporânea.


Adolescentes não abandonaram a TV, diz pesquisa

19/03/2012

Tradução de Larriza Thurler (edição: Leticia Nunes)

Extraído de: Observatório da Imprensa

Mesmo com adolescentes passando mais tempo diante das pequenas telas de celulares, tablets e notebooks, ainda é a TV que recebe mais atenção deles, noticia Joe Flint [Los Angeles Times, 9/3/12]. “Há uma noção popularizada do típico adolescente constantemente conectado digitalmente. Na realidade, adolescentes consomem a vasta maioria do seu conteúdo de vídeo via TV tradicional”, afirma Todd Juenger, analista da empresa de pesquisa Sanford C. Bernstein & Co, no relatório “Why the Internet Won’t Kill TV” (Por que a internet não vai matar a TV).

Juenger analisou dados do instituto Nielsen que mostram que o “consumo de TV por adolescentes continuou a crescer, mesmo com o surgimento de novos aparelhos tecnológicos”. Atualmente, adolescentes assistem a quase quatro horas de TV por dia. Embora sejam duas horas a menos do que a maioria dos adultos, é mais do que as quase três horas que gastavam diante da TV em 2004 – a taxa de crescimento tem sido de 2,5% ao ano. Adultos sempre assistiram a mais TV do que adolescentes.

Os resultados sugerem que os adolescentes veem as novas plataformas como um acréscimo à TV. Em média, eles assistem a apenas três minutos de vídeo por dia no computador ou no celular, o que é menos do que 3% do total do consumo de vídeo.

Há preocupação na indústria televisiva de que, na medida em que os consumidores migram para novas mídias, o investimento com publicidade caia. Mas Juenger observou que, enquanto os jornais impressos já sentiram a migração de recursos publicitários e do público para a web, a TV ainda não sofreu este impacto. Segundo o analista, ainda deve levar duas décadas para que isto ocorra.


O velho e o novo da política nas estratégias de mobilização social em #Kony2012

17/03/2012

Após assistir o vídeo “Kony 2012” (incorporado abaixo), refleti não apenas sobre as informações contidas nele, mas também sobre as estratégias de atuação de ONGs e movimentos sociais na atualidade. Decidi então escrever este post sobre o vídeo, não tanto sobre problema em questão (as “Crianças Invisíveis” de Uganda), mas mais sobre como a própria estratégia de #Kony2012 sintetiza alguns temas velhos e novos do engajamento e da mobilização social em tempos de facebook e youtube. Como poderão perceber, o vídeo me despertou mais pensamentos paradoxais do que conclusões unilaterais. Leiam esse texto, portanto, mais como um convite ao diálogo do que como um veredicto.

Entretanto, antes de começar a escrever sobre o assunto resolvi perguntar para meus amigos e conhecidos sobre o que tinham achado do vídeo. A maioria tinha ouvido falar, tinha inclusive começado a assistir, mas mesmo os que apertaram o “play” pararam nos primeiros minutos. Pude perceber concretamente os efeitos da presente “dinâmica de 140 caracteres” no modo como apreendemos as informações, estejam estas contidas de imagens, vídeos, diálogos ou textos. Sendo assim, procurei produzir um “fast post” (pra se somar aos fast foods, fast fashions e toda a efemeridade das nossas fast lifes), em tópicos e sem uma conclusão clara. Fui escrevendo alguns apontamentos conforme assistia o vídeo, e agora os compartilho aqui (até pra revitalizar este blog). A perda qualitativa de um texto produzido nesses padrões é compensada pelo ganho quantitativo de leitores que podem, inclusive, se interessar em finalmente terminar de ver o vídeo e refletir sobre ele.

01. O uso dos conhecimentos científicos e profissionais no ativismo e no ciberativismo tem o potencial de transformar as estratégias de mobilização social, uma vez que a divulgação de informações ganha em qualidade e poder de difusão. #Kony2012 é resultado desse “ativismo esclarecido”, isto é, do uso de habilidades profissionais (como produção audiovisual, relacionamento humano, levantamento de dados, contabilidade, montagem de sites, etc.) na divulgação de ideais dos movimentos políticos.

02. Porém, o ativismo esclarecido e o ciberativismo por si só não tem superado todos os problemas, simplificações e reducionismos da mobilização política de massa. Isso ocorre porque muitas vezes atuam através dos velhos processos de legitimação de idéias, sendo pouco críticos com o que está por trás de suas práticas. Por mais justa que seja a causa (chamar atenção e pôr fim ao sofrimento de crianças sem perspectivas de um futuro melhor), tal processo pode ter conseqüências problemáticas. São esses limites do ativismo atual que fundamentaram minhas reflexões sobre #Kony2012.

03. No caso de #Kony2012, o ciberativismo une-se um tipo particular de marketing, o marketing capitalista contemporâneo, instigador dos impulsos mais imediatistas, emotivos e apelativos para fins de estimular o consumo.  Em #Kony2012, os impulsos imediatistas, emotivos e apelativos são utilizados para gerar a mobilização política. Cabe se perguntar o que isso traz de novo e de diferente na mobilização social, e o que traz de reprodução do velho na prática política.

04. Sabemos que o impacto midiático sobre abuso ou morte de crianças é maior quando estas são da classe média e vítimas de problemas familiares, pessoais ou tragédias pontuais (como os casos de “Isabela Nardoni”, “Eloá” ou o “Massacre em Realengo (RJ)”). #Kony2012, ao contrário, abarca uma realidade distinta. Utiliza o caso pessoal de Jacob para mostrar a injustiça vivenciada por uma coletividade de crianças em situação de pobreza e violência, vítimas de problemas político-sociais mais amplos.

05. Contudo, parte do sucesso de #Kony2012 se deve justamente ao fato do problema social em questão envolver temas apelativos tradicionalmente explorados pela grande mídia, como crianças, abusos e violência. Será que a mesma estratégia de marketing utilizada com problemas sociais de menor impacto apelativo imediato – como a questão da moradia ou a luta pela terra, mais próximos de nossa realidade – teria o mesmo sucesso?

06. Indo além, a comoção com a violência vivenciada pelas crianças de Uganda é somada, no vídeo, às cenas do produtor Jason explicando a situação a seu filho Gavin. O que, afinal, tem maior poder apelativo para chamar à mobilização social: as imagens da situação concreta das crianças africanas ou as imagens de uma criança americana, loira e branca falando sobre o assunto?

07. Isso não significa acusar a abordagem do vídeo como diretamente classista ou racista. Mas trata-se de questionar toda a carga ideológica, social e cultural polêmica presente nas práticas de publicidade e que, sem uma reflexão profunda a respeito, acaba por ser legitimada, consciente ou inconscientemente, junto com a temática central do vídeo.

08. Não é só a utilização do marketing contemporâneo que merece uma reflexão mais profunda em #Kony2012. Os discursos do vídeo muitas vezes se utilizam de outros reducionismos para atingir o público, como a excessiva estereotipização da África e uma visão maniqueísta dos problemas sociais (o mundo dividido entre “bons” – pacifistas ocidentais – e “maus” – Joseph Kony e outros não ocidentais da lista da ICC).

09. Mas talvez o mais sério discurso indireto presente no vídeo é a idéia de que os Estados Unidos da América tenham razão em se enxergar e atuar como “polícia do mundo” (os “bons”, democráticos, capazes de capturar e punir os “maus”, criminosos e ditadores). Mais uma vez, uma peça midiática reproduz a ideologia do branco civilizador/salvador, solucionador de problemas que os outros não têm capacidade de resolver por si só.

10. Sobre este último ponto, cabe lembrar que #Kony2012 não convoca apenas os estadounidenses para pedir a atuação direta dos EUA em Uganda e região, mas também chama internautas de outras nacionalidades a engrossas o coro. A partir do momento que alguém de fora dos EUA se engaja numa campanha com esse objetivo, esse alguém deve levar em conta que estará legitimando a prática neocolonial de atuação dos EUA como “polícia do mundo” na resolução de conflitos em outros países.

11. Cabe ressaltar, contudo, que o vídeo é claro em propor uma definição social, popular e coletiva do que é um “criminoso” a ser caçado e preso com apoio da intervenção dos EUA, e não uma definição governamental de “criminoso”. Mas e quando a justificativa de “caça ao criminoso” for utilizada pelo governo dos EUA para intervir em outros países e encobrir seus reais interesses político-econômicos (como na “guerra ao terror” de George W. Bush)? Sem uma mobilização tão apelativa quanto #Kony2012, a mesma multidão que apoiou a atuação de “polícia do mundo” dos EUA estaria lá para impedir tal atitude? Tomando como base nossa história recente, tenho sérias dúvidas.

12. Mais do que uma visão antiamericana, especialistas já apontam que existem, sim, motivos concretos para os EUA lucrarem com uma intervenção militar na África Central (região que conta, inclusive, com poços de petróleo recém-descobertos). Por mais bem-intencionada que seja a “Invisible Children”, deve-se colocar na balança se as perdas econômicas e sociais que tal intervenção traria para a África compensam a caçada à Joseph Kony.

13. Apesar de todas as críticas levantadas contra a estratégia de #Kony2012, não se pode ignorar alguns fatos. O vídeo atingiu a marca de 80 milhões de visualizações em 6 dias – na verdade, mais de 100 milhões, levando em conta as versões com legenda – tornando-o o viral mais bem sucedido da história ( “Susan Boyle” levou 3 dias a mais; “Baby”, de Justin Bieber, levou 56 dias e um vídeo de humor, “David After Dentist”, 359). Se o objetivo era inicialmente tornar Kony e suas práticas visíveis a quem antes o desconhecia, esse objetivo foi alcançado.

14. Em segundo lugar, como muitos apontaram, Joseph Kony atualmente sequer seqüestraria mais crianças (seu exército já teria inclusive sido desmantelado, segundo informações na internet).  Mas se Kony realmente está enfraquecido e não adota mais as práticas do passado, isso se deve também (mas não só) a visibilidade que o problema ganhou com ativistas como os da ONG “Invisible Children” e a conseqüente ação política dos EUA.

15. Mas a “atuação real” para além do virtual proposta em #Kony2012 também é pautada por meios tradicionais de conseguir notoriedade, meios estes nada críticos dos problemas da velha mídia e da democracia representativa. Para “Invisible Children”, a esperança está na comoção de celebridades da mídia e no subseqüente lobby junto aos políticos dos EUA. No limite, seria algo como tentar fazer algo sobre Pinheirinho comovendo Zezé di Camargo & Luciano ou Neymar a pressionar alguma atitude de Sarney e Bolsonaro.

16. Para além da violação dos direitos humanos, do abuso e da violência contra crianças em Uganda, devemos nos questionar, a título de conclusão, o que as práticas de mobilização ganham e perdem a partir de estratégias como as de #Kony2012. Utilizar o marketing político tradicional através das tecnologias de comunicação inovadoras traz resultados mais eficientes para o ativismo político?

17. Em números, #Kony2012 é um sucesso. Mostra que o uso dos conhecimentos práticos na comunicação, na produção de vídeos, no levantamento documental e no uso das redes virtuais pode atingir rapidamente milhões de pessoas ao redor do mundo. Mas se o marketing contemporâneo é imediatista, emotivo e apelativo, o tipo de mobilização social instigada através dele também tende a sê-la.

Alguns outros textos sobre o assunto:

http://ragwood.tumblr.com/post/19453256221/an-open-letter-to-invisible-children-the-followers

http://observatoriodaimprensa.com.br/posts/view/o_dilema_da_imprensa_no_complexo_drama_das_ldquo_criancas_invisiveis_rdquo_em_uganda

http://pedrox.com.br/?p=633


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