
No último sábado, dia 25 de maio, realizamos a segunda edição da Marcha das Vadias em São Carlos, assim como em outras cidades. Neste ano, como no anterior, o centro de São Carlos parou para acompanhar um ato riquíssimo em termos de conteúdo, organização e sensibilização das pessoas pela causa. Muitos concordam, por consenso, que o ato é importante e que a violência contra a mulher precisa acabar. Mas será mesmo que essa concordância é geral, que estamos em situação de acreditar que a cidade e o poder público estão de fato cada vez mais sensíveis ao tema e preocupados em combatê-lo? A mais recente atitude do prefeito Altomani comprova que não.
Primeiro, sobre a Marcha e seus objetivos. Ela surgiu após o comentário de um policial canadense acerca de um caso de violência sexual. Para ele, a primeira coisa a se fazer para evitar um estupro é “não se vestir como vadia”. Mais uma vez, uma fala – no caso, uma fala institucional, em nome do poder repressor do Estado – que responsabiliza a vítima pela violência sofrida, tornando-a cúmplice por não ter escolhido o caminho natural: ter se privado de sua liberdade para não incitar o “instinto” masculino.
A Marcha das Vadias tem como objetivo negar a tese de que mulheres não podem usufruir de sua liberdade – de comportamento, de vestimenta, de práticas afetivas e sexuais, de fala, de circulação, etc. – e combater os discursos que legitimam as mais variadas formas de violência contra elas.
Mas a Marcha ainda é necessária? Comparando com a situação da mulher o século XX, as mulheres contemporâneas parecem mais livres e independentes em várias esferas da vida, seja na profissional, na familiar, na educacional, na política, entre outras. Para alguns, não se trata de combater a opressão, mas de se vitimizar – enquanto mulher, enquanto pobre, enquanto negro, enquanto indígena – para conquistar direitos (esses mesmos “alguns” diriam “privilégios”).
A Marcha das Vadias é necessária, sim, não apenas pelo combate ao discurso machista diante do estupro, mas também porque a maior liberdade feminina conquistada bem recentemente ainda é muito instável e relativa. Na esfera profissional, as mulheres ainda ganham menos que os homens, são preteridas a estes por engravidarem e sofrem abusos, maus tratos, assédios e diferenças de tratamento. Na esfera familiar, muitas ainda sofrem violência doméstica e ainda hoje são assujeitadas e se sujeitam a diferentes formas de “divisão do trabalho doméstico”. Na educacional, possuem dificuldades para se inserir na universidade por falta de bolsas específicas, como auxílio para estudantes mães e moradia, além de se inserirem, em alguns casos, em espaços descaradamente machistas. Na política, as mulheres ainda são minoria, e quanto aos direitos, ainda que a lei se proponha a tratar todos os indivíduos como iguais, isso não garante que as mulheres sempre tenham seus direitos, sua segurança e seu bem-estar respeitados e defendidos de maneira eficiente.
Quem considera que os movimentos feministas, negros, indígenas, de trabalhadores, de sem teto, sem terra, e outros movimentos sociais estão em busca de privilégios ou não sabe o que essa palavra significa, ou vive em um outro mundo bem distante deste planeta – gosto de pensar que a palavra “alienado” lembra, em primeiro lugar, “aliens”, justamente estas pessoas que parecem estar à anos-luz de enxergar e compreender as relações concretas e objetivas da nossa realidade.
É porque a educação, a política, a lei, a família, o Estado, o mercado de trabalho privilegiam historicamente os homens que precisamos pensar em ações afirmativas e legislações específicas que corrijam tal situação. Quem quiser mais informações sobre o tema “privilégios sociais” pode refletir sobre este texto que traduzi (bem porcamente) já há algum tempo.
Contudo, poderíamos especificar a pergunta anterior: a Marcha das Vadias em São Carlos é necessária? Em que pé anda o município quanto ao combate e à prevenção das várias formas de violência contra a mulher?
Na noite de ontem, J.C.S.J., de 23 anos, agrediu sua ex-namorada com socos e golpes de faca em um matagal próximo à Escola Deriggi, no bairro Cidade Aracy. Cortou três de seus dedos. O motivo: ciúme. A vítima, de apenas 17 anos, já havia procurado a polícia e possuía uma medida protetiva que impedia J.C.S.J. de se aproximar 200 metros dela. Inútil, pois o jovem se viu no direito de agredir sua ex mesmo assim.
Aqueles mesmos “alguns” ou os “aliens” que citei acima poderiam conjecturar sobre muita coisa. Seria ela que teria traído seu namorado? Ela não teria agredido ele de alguma forma antes dele apenas revidar? Em suma, antes de julgar o cara, não deveríamos nos perguntar se ela não é uma dessas “vadias”? E outra coisa, mulheres também não agridem seus namorados e ex-namorados?
Acredito que tais perguntais não sejam apenas reflexo de uma mente alienada, mas também desonesta, que sequer percebe que mesmo se eles ainda namorassem ninguém pode socar, arrastar pra um matagal e esfaquear um outro alguém, independente da justificativa. Qualquer pessoa honesta, além disso, também sabe que os casos de violência contra as mulheres superam em muito numericamente os casos opostos. E, justamente como a Marcha das Vadias quer chamar a atenção, é porque tal tipo de pergunta ainda é levado a sério por muitos que ela, Marcha, se faz necessária. Dito de outro modo, a violência contra a mulher ainda é amenizada pelas instituições sociais e, assim, naturalizada e banalizada.
Talvez, ao analisar o ocorrido aqui em São Carlos ontem, o policial pudesse ter dito algo do tipo “ela que procura, depois a vagabunda ainda volta pro namorado”. Pois bem, aquele policial canadense não está sozinho. Essa frase que acabei de citar teria sido proferida por uma pessoa extremamente importante na Prefeitura Municipal de São Carlos. Não sobre essa notícia em particular, mas sobre outro assunto relacionado: a Casa Abrigo de São Carlos.
Muitos não conhecem a Casa Abrigo da cidade, justamente porque sua atuação é sigilosa. Foi a primeira iniciativa do tipo em uma cidade do interior do Brasil, e recebeu o nome de “Gravelina Terezinha Lemes”. Ela atende – ou atendia – as mulheres vítimas de violência na cidade ou que sofram perseguição, fornecendo apoio psicológico e até estrutural para as vítimas não sofrerem mais nenhum abuso, terem apoio para denunciar e criminalizar o agressor e conseguirem reestruturar suas vidas.
Ontem, a Casa Abrigo Gravelina Terezinha Lemes foi fechada, por tempo indeterminado. [Eu escrevi anteriormente que o fechamento foi no dia 7 de abril, mas fui corrigido nos comentários pela Roberta, obrigado!]. As mulheres que precisam de amparo, e a própria jovem de 17 anos agredida ontem na cidade Aracy é uma dessas, agora deveria, segundo a Secretaria de Cidadania e Assistência Social, procurar ajuda há alguns quilômetros de distância, em cidades como Araraquara ou Ribeirão Preto. A justificativa, ainda segundo a Secretaria, é que a prefeitura está a “esperar editais do governo federal” que atuem sobre essa esfera para conseguir mais dinheiro e instrumentalizar melhor o abrigo.
Contudo, é muito difícil que isso venha a acontecer. Não porque a história de “esperar editais do governo” seja absurda, não porque a gestão Altomani já demonstrou que políticas públicas não sejam seu forte, mas principalmente pois, como afirmado, uma das principais responsáveis pelo fechamento e pela gestão do caso é a mesma pessoa que teria falado, literalmente, que “a casa não serve pra nada, depois a vagabunda volta pro marido”.
A mesma prefeitura que fechou a Casa Abrigo cogita desmontar ainda mais o atendimento às mulheres da cidade, pois o Centro de Referência da Mulher (CRM), criado em 2008 com o apoio do governo federal, pode também ser fechado, sendo transformado em CREAS pela prefeitura. Sem ser CRM, sendo apenas CREAS, a prefeitura não apenas elimina “resquícios de programas petistas” da prefeitura – como já fez na cultura com os Pontos de Cultura – de maneira esdrúxula e irresponsável, mas também destrói o caráter específico do atendimento à mulher, necessário à eficiência desse serviço.
O machismo e o discurso misógino não são uma criação fabulosa feminista, são uma marca objetiva e facilmente identificável nas instituições sociais para quem tem o mínimo de vontade e honestidade em enxergá-las.
Só neste ano, São Carlos viu o machismo institucionalizado ocorrer com a USP se negando a punir mais incisivamente os responsáveis pelo trote machista no espaço da universidade, a prefeitura de Altomani, no dia 8 de março, o dia internacional da mulher, se limitando a distribuir flores e sequer citando nenhum tipo de preocupação em melhorar as condições de atendimento das mulheres e, agora, com o fechamento da Casa Abrigo e a perda do CRM.
Dito de maneira nua e crua, para Altomani e seus aliados, quem luta por cultura é maconheiro vadiando em praça pública, mulher que apanha também é vagabunda e por aí vai.
O que o governo municipal não percebe é que, com suas atitudes impensadas, está ajudando a promover a união de muitos vadios, vadias, vagabundos e vagabundas, insatisfeitos e insatisfeitas com os “cidadãos de bem” que estão no poder. Cabe a nós, vadios e vadias, sabermos organizar não apenas a Marcha das Vadias, o Cultura na Pauta, a Greve da Medicina, os protestos contra a Athenas Paulista, mas uma grande unificação da nossa vadiagem e vagabundagem contra os desmandos autoritários dessa prefeitura que não nos representa.